O ilusionista
Christopher Nolan conta os segredos do melhor filme de HQs da história
Rodrigo Salem, de Los Angeles
Matéria publicada na edição 253 (Julho/2008) de SET
O Cavaleiro das Trevas é sua primeira seqüência. O que há de tão fascinante no Batman?Ele é o mais humano dos super-heróis, não tem nenhum superpoder, a não ser que você conte sua extraordinária conta bancária (risos). Acho que isso o torna mais identificável, porque ele tem impulsos humanos e é levado por instintos mais sombrios, mas tenta transformar isso em algo positivo.
Mesmo assim, o Batman não é encarado como um herói. Qual a razão desse ângulo?
Há poucas figuras heróicas reconhecíveis nos dias de hoje. O que mostramos neste filme é o impacto de um herói de verdade numa cidade americana e acho que seria pouco realista ter alguém assim sem controvérsia. O que ele faz é extremista. Até mesmo dentro das forças da Lei existe uma dúvida se ele é um fora-da-lei ou não. Acho interessante investigar o que as outras pessoas pensam sobre ele, particularmente Harvey Dent.
Você consegue algo que parece impossível com esse longa, que é a sensação de que tudo pode acontecer...
O que tentamos provar em O Cavaleiro das Trevas é que existe liberdade no trabalho com personagens que o público tem uma relação. Você tem a permissão de lidar com grandes emoções e grandes escalas. É impossível fazer isso com personagens novos. O estilo noir vem dos quadrinhos também. Tramas como O Longo Dia das Bruxas são muito nesse estilo. É a história de uma cidade. É um épico criminal.
Como você chegou a Heath Ledger para o Coringa?
Encontrei Heath ao longo dos anos em vários projetos que nunca vingaram. Uma vez, ele me contou que uma de suas preocupações era que o enxergassem como uma estrela de cinema antes que pudesse provar ser bom ator. Sua grande performance veio com O Segredo de Brokeback Mountain. É uma atuação de uma habilidade extraordinária, mas acho o que pode passar despercebido é seu grande momento quando o personagem envelhece, porque ele interpreta um homem introvertido, que não fala nada para ninguém. E Heath faz isso sem a menor vaidade. Quando conversamos pela primeira vez sobre o Coringa, concordamos que o Coringa deveria ser assustador, um elemento de pura anarquia. Ele sabia como fazer isso e estava muito seguro. Minha responsabilidade em montar seu trabalho no filme foi multiplicada, mas agora as pessoas podem ver sua interpretação e estou aliviado em observar as primeiras reações, porque mostram que entenderam sua performance.
Você tem uma tendência em não usar tantos efeitos, utilizando cenários reais o máximo possível. Por quê?
Bem, o desafio de tentar fazer uma seqüência mais impressionante em termos técnicos é fazer maior. É um truque complicado. Tentamos aumentar a escala desse filme mudando de gêneros o tempo todo. Filmamos a maioria dos longas em locações de verdade, não somente exteriores, mas interiores. Ao filmar em Chicago e Hong Kong queríamos um filme que parecesse real, porém grandioso. Porque o mundo é maior que qualquer estúdio construído.
Você já fez remake e agora uma seqüência. Qual o segredo de criar algo assim e manter a qualidade?
A importância do material original é muito superestimada, em minha opinião. Não importa se é uma continuação, um remake ou uma adaptação de livro para Hollywood, nada disso é tão importante quanto algumas pessoas pensam. O importante é fazer algo inovador desse material.
Você pensa em Batman - O Cavaleiro das Trevas como o segundo capítulo de uma trilogia?
Olha, para responder a isso seriamente, precisaria olhar para outras seqüências e não há muitos "capítulos dois" bons no cinema. Há O Poderoso Chefão 2, O Império Contra-Ataca... Então, para fazer uma continuação digna, não poderíamos nos dar ao luxo de nos preocupar sem jogar elementos para um terceiro capítulo. Já existe munição demais para preencher um filme somente com a trama dele isolada.
Então, quando existe o diálogo sobre o uniforme do Batman ser à prova de gatos, não é uma referência à Mulher-Gato?
(Risos) Christian (Bale) perguntou a mesma coisa para mim. Mas não, não tem nada disso. Foi apenas uma piada.
O filme lida com questão de moralidade. Isso é algo recorrente em seus longas. É consciente?
Não é consciente, mas tento não ser tão consciente em relação aos temas de meus filmes. Tento fazer com que sejam interessantes, mas não me preocupo sobre o que quero dizer por baixo daquela história.
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